quinta-feira, julho 23, 2009

Carta ao Presidente

Caro Presidente:
É triste, mas tenho que admitir que sou uma pessoa comum.
Meu dia-a-dia não é nada interessante... acordo cedo (sabe como é, moro em São Paulo e pessoas comuns enfrentam o trânsito todo dia, não têm helicópteros...), tomo café-da-manhã com meu filho; aliás, é a melhor parte do meu dia, apesar de estarmos ambos com sono, ainda "esquentando o motor" pro restante do dia. Eu o levo pra escola pública onde ele passa o dia, isso quando tem aula, sabe como é, pessoas comuns não têm dinheiro para pagar uma escola particular, temos que nos contentar com o ensino deficitário para nossas crianças... É complicado, paguei caro pelo uniforme, pago a APM todo mês, gastei uma fortuna em material escolar - mas sinto o desconforto inevitável de que não tenho retorno em ensino de qualidade. Diga-se de passagem, sempre estudei em escola pública - ainda me lembro de um ano em que praticamente não tive aula, por causa das greves. Mas na época até que tínhamos um pouco de qualidade, acredito eu que mais devido aos ótimos professores que eu tinha do que à boa-vontade dos governantes. E quem ia mal nas provas, re-pe-ti-a. Não tinha essa de passar analfabeto, não. Bons tempos, viu, presidente? Mas é comum sentir saudades do passado, né? Fazer o quê, sou só uma pessoa comum.
Depois de deixar meu filho na escola, vou para o ponto de ônibus. Tenho que correr, pois se perder um, outro demora muito a passar. Quase sempre consigo viajar sentada, mas se entra um idoso, uma mãe com criança de colo ou coisa parecida, acabo dando o meu lugar. Sabe como é, essas pessoas saem cedo de casa para ir ao médico, para resolver sua vida (provavelmente passarão o dia inteiro esperando atendimento - SE conseguirem), e eu tenho que me solidarizar, são pessoas comuns como eu.
Esse trajeto dura uma hora e meia, mais ou menos, e aí eu chego ao centro. Vejo gente correndo pra chegar no horário, com aquele rosto cinza de cansaço que todo mundo tem de manhã... quer dizer, todo mundo que é comum. Acredito que nesse horário só pessoas comuns estão chegando ao trabalho. A mesma coisa se repete no final da tarde. As mesmas pessoas comuns estão voltando pra casa, cansadas e com a certeza de que vão enfrentar mais trânsito, mais aperto no ônibus, trem ou metrô, mais estresse... Mas pessoas comuns são assim, o senhor acredita? Elas passam por isso todos os dias, cinco, seis, sete dias por semana. Sim, é verdade, trabalhamos a semana INTEIRA. Não estranhe, é assim mesmo, somos pessoas comuns.
O meu salário... bom, meu salário é uma piada, né, Presidente? Só rindo, mesmo... É uma pena, mas não consigo guardar um dinheirinho pra viajar num feriado, levar meu filho pra passear, nem que seja na praia mais fuleirinha. É que, sendo comum, tenho que pagar passagem de ônibus. Avião?!?!? Imagina, nem parcelando. E no meu trabalho, não temos cotas, sabe? Só o vale-transporte, mesmo. Sou comum.
Minha mãe é aposentada. É uma alegria pra mim - apesar da aposentadoria dela ser por nós chamada carinhosamente de VERGONHA - , porque ela trabalhou muito, em dois empregos, para dar para mim e para minha irmã a educação que tivemos. Meu pai ainda não pôde se aposentar, é muita burocracia, e olha que ele já trabalha há muito mais de oito anos, hein? Meus pais sempre exigiram boas notas, chamar os professores de "senhor", e carrego isso pra sempre na minha vida. Eu nunca tive todos os brinquedos e bobagens que pedia, todo o conforto e luxo que eu via na TV e nas revistas. E, olha, cá entre nós, não sei se o senhor vai acreditar, mas eu nunca fui à Disney. Sabe por quê? Porque sou comum.
Minha casa é própria, graças a Deus, mas o IPTU... tá caro, viu, Presidente? E no meu trabalho não dão auxílio-moradia, às vezes me entristece, porque seria tão bom... Imagina, ser "bancada" pela empresa num apartamento? É, mas fica só no sonho... Eu sou comum, né, Presidente.
Nossa, e se eu indicar um parente ou amigo pra trabalhar na empresa? É fogo, porque tudo que a outra pessoa fizer é responsabilidade minha também. Preciso ficar atenta, nunca indicar alguém que não tenha competência ou não seja qualificado, a penalizada serei eu. Fazer o quê, sou mesmo uma pessa comum.
Pago um convênio médico para mim e meu filho. Compromete meu orçamento, mas foi o único jeito que encontrei de poder ir ao médico quando preciso, e não esperar três ou quatro meses por um agendamento, isso SE tiver médico no dia. Foi o único jeito que encontrei de marcar um horário e ser atendida naquele horário - porque, não sei se o senhor sabe, se eu chegar atrasada no trabalho... me descontam o atraso, sabia? Gente comum é assim.
O engraçado, Senhor Presidente, é que pago meus impostos em dia. Arco com todas as responsabilidades de ser cidadã desse país que, não se engane, eu AMO de verdade. A cada eleição, eu ouço tudo que me é prometido, e mesmo não acreditando muito, dou um voto de confiança aos políticos que escolho não pela campanha, pela carinha bonita, pelo índice de popularidade, pelos padrinhos políticos - mas pelo retrospecto e competência. Doce ilusão, não é? Porque as pessoas que estão no poder, embora não pareça - e eu sei que o senhor não vai concordar comigo - são PESSOAS COMUNS. Devem, sim, respeito à enorme massa que é o povo brasileiro. Devem, sim, satisfações dos seus atos, e merecem, SIM, punições por seus erros. Porque eu, senhor Presidente, EUZINHA aqui, se cometer um erro, um deslize ou um crime, seja pequeno, médio, grande, vou pagar por ele, não tenha dúvida.
Mas quem sou eu, né? Pro senhor e pra todos os políticos que me deixam envergonhada de ser brasileira cada vez que leio as notícias, eu sou só uma pessoa comum.

Um comentário:

Angela Cezar disse...

Enviou essa carta? Se não o fez devia ter feito pois o que vc disse tá entalado na garganta de cada trabalhador e gente que, como nós, sonha em ter o suficiente pra pagar as contas e ter a oportunidade de gastar com alguma outra coisa, que não seja apenas o basicão. Quem sabe um dia a gente acerte.